Penetrália
Falei tanto de amor!...
de galanteio, Vaidade e brinco, passatempo e graça, Ou desejo fugaz, que brilha e passa No relâmpago breve com que veio... O verdadeiro amor, honra e desgraça, Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o: Nunca o entreguei ao público recreio, Nunca o expus indiscreto ao sol da praça. Não proclamei os nomes, que baixinho, Rezava...
E ainda hoje, tímido, mergulho Em funda sombra o meu melhor carinho. Quando amo, amo e deliro sem barulho; E quando sofro, calo-me, e definho
Na ventura infeliz do meu orgulho.
olavo bilac
terça-feira, 9 de outubro de 2007
REMORSO
As vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando, Cismo e padeço.
neste outono, quando Calculo o que perdi na primavera.
Versos e amores sufoquei calando, Sem os gozar numa explosão sinsera..
Ah!Mais cem vidas!
com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!
Sinto o que desperdiçei na juventude
Choro neste começo de velhice.
Mártir da hipocresia ou da virtude.
OS BEIJOS QUE NÃO TIVE POR TOLICE, POR TIMIDEZ O QUE SOFRER NÃO PUDE, E POER PUDOR OS VERSOS QUE NÃO DISSE! [Olavo Bilac]
As vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando, Cismo e padeço.
neste outono, quando Calculo o que perdi na primavera.
Versos e amores sufoquei calando, Sem os gozar numa explosão sinsera..
Ah!Mais cem vidas!
com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!
Sinto o que desperdiçei na juventude
Choro neste começo de velhice.
Mártir da hipocresia ou da virtude.
OS BEIJOS QUE NÃO TIVE POR TOLICE, POR TIMIDEZ O QUE SOFRER NÃO PUDE, E POER PUDOR OS VERSOS QUE NÃO DISSE! [Olavo Bilac]
Tercetos (Olavo Bilac)
Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora, Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:“Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...E olha que escuridão há lá por fora!Como queres que eu vá, triste e sozinho,Casando a treva e o frio de meu peitoAo frio e à treva que há pelo o caminho?!Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!
Morrerei de aflição e de saudade...Espera!
até que o dia resplandeça,Aquece-me com a tua mocidade!
Sobre o teu colo deixa-me a cabeçaRepousar, como há pouco repousava...Espera um pouco! deixa que amanheça!”─ E ela abria-me os braços. E eu ficava.E, já manhã, quando ela me pedia Que de seu claro corpo me afastasse,Eu, com os olhos em lágrimas , dizia:“Não pode ser! não vês que o dia nasce?A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...Que diria de ti quem me encontrasse?Ah! nem me digas que isso pouco importa!...Que pensariam, vendo-me, apressado,Tão cedo assim, saindo a tua porta,Vendo-me exausto, pálido, cansado,E todo pelo aroma de teu beijoEscandalosamente perfumado?O amor, querida, não exclui o pejo...Espera! até que o sol desapareça,Beija-me a boca! mata-me o desejo!Sobre o teu colo deixa-me a cabeçaRepousar, como há pouco repousava!Espera um pouco! Deixa que anoiteça!”─ E ela abria-me os braços. E eu ficava.
Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora, Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:“Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...E olha que escuridão há lá por fora!Como queres que eu vá, triste e sozinho,Casando a treva e o frio de meu peitoAo frio e à treva que há pelo o caminho?!Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!
Morrerei de aflição e de saudade...Espera!
até que o dia resplandeça,Aquece-me com a tua mocidade!
Sobre o teu colo deixa-me a cabeçaRepousar, como há pouco repousava...Espera um pouco! deixa que amanheça!”─ E ela abria-me os braços. E eu ficava.E, já manhã, quando ela me pedia Que de seu claro corpo me afastasse,Eu, com os olhos em lágrimas , dizia:“Não pode ser! não vês que o dia nasce?A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...Que diria de ti quem me encontrasse?Ah! nem me digas que isso pouco importa!...Que pensariam, vendo-me, apressado,Tão cedo assim, saindo a tua porta,Vendo-me exausto, pálido, cansado,E todo pelo aroma de teu beijoEscandalosamente perfumado?O amor, querida, não exclui o pejo...Espera! até que o sol desapareça,Beija-me a boca! mata-me o desejo!Sobre o teu colo deixa-me a cabeçaRepousar, como há pouco repousava!Espera um pouco! Deixa que anoiteça!”─ E ela abria-me os braços. E eu ficava.
Vila Rica
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:E cada cicatriz brilha como um brasão.
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre. O último ouro do sol morre na cerração.E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,O crepúsculo cai como uma extrema unção.
Agora, para além do cerro, o céu parece Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu...A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,Como uma procissão espectral que se move...Dobra o sino… Soluça um verso de Dirceu...Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove Vila Rica
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:E cada cicatriz brilha como um brasão.
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre.O último ouro do sol morre na cerração.E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,O crepúsculo cai como uma extrema unção.
Agora, para além do cerro, o céu pareceFeito de um ouro ancião que o tempo enegreceu...A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,Como uma procissão espectral que se move...Dobra o sino… Soluça um verso de Dirceu...Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove
olavo bilac
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:E cada cicatriz brilha como um brasão.
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre. O último ouro do sol morre na cerração.E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,O crepúsculo cai como uma extrema unção.
Agora, para além do cerro, o céu parece Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu...A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,Como uma procissão espectral que se move...Dobra o sino… Soluça um verso de Dirceu...Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove Vila Rica
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:E cada cicatriz brilha como um brasão.
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre.O último ouro do sol morre na cerração.E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,O crepúsculo cai como uma extrema unção.
Agora, para além do cerro, o céu pareceFeito de um ouro ancião que o tempo enegreceu...A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,Como uma procissão espectral que se move...Dobra o sino… Soluça um verso de Dirceu...Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove
olavo bilac
A Velhice (olavo bilac)
Olha estas velhas árvores, mais belas Do que as árvores moças, mais amigas,Tanto mais belas quanto mais antigas,Vencedoras da idade e das procelas...O homem, a fera e o inseto, à sombra delasVivem, livres da fome e de fadigas:E em seus galhos abrigam-se as cantigasE os amores das aves tagarelas. Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo.
Envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem ,Na glória de alegria e da bondade,Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem
A Velhice
Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,Tanto mais belas quanto mais antigas,Vencedoras da idade e das procelas...O homem, a fera e o inseto, à sombra delasVivem, livres da fome e de fadigas:E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.Não choremos, amigo, a mocidade!Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem, Na glória de alegria e da bondade,Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem
Olha estas velhas árvores, mais belas Do que as árvores moças, mais amigas,Tanto mais belas quanto mais antigas,Vencedoras da idade e das procelas...O homem, a fera e o inseto, à sombra delasVivem, livres da fome e de fadigas:E em seus galhos abrigam-se as cantigasE os amores das aves tagarelas. Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo.
Envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem ,Na glória de alegria e da bondade,Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem
A Velhice
Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,Tanto mais belas quanto mais antigas,Vencedoras da idade e das procelas...O homem, a fera e o inseto, à sombra delasVivem, livres da fome e de fadigas:E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.Não choremos, amigo, a mocidade!Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem, Na glória de alegria e da bondade,Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem
"Rio Abaixo"
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...Quase noite. Ao sabor do curso lentoDa água, que as margens em redor alaga,Seguimos. Curva os bambuais o vento.Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,Desmaia agora o Ocaso. A noite apagaA derradeira luz do firmamento...Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.Um silêncio tristíssimo por tudoSe espalha. Mas a lua lentamenteSurge na fímbria do horizonte mudo:E o seu reflexo pálido, embebidoComo um gládio de prata na corrente,Rasga o seio do rio adormecido.
(Olavo Bilac)
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...Quase noite. Ao sabor do curso lentoDa água, que as margens em redor alaga,Seguimos. Curva os bambuais o vento.Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,Desmaia agora o Ocaso. A noite apagaA derradeira luz do firmamento...Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.Um silêncio tristíssimo por tudoSe espalha. Mas a lua lentamenteSurge na fímbria do horizonte mudo:E o seu reflexo pálido, embebidoComo um gládio de prata na corrente,Rasga o seio do rio adormecido.
(Olavo Bilac)
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